Antes do Amanhecer, do Pôr-do-Sol e da Meia-Noite

E ontem (05), no dia dos irmãos, me peguei vendo filminho com minha mana. Foi bem assim que postei sobre essa coincidência no facebook  e que fez começar a escrever esse texto. Não, não é sobre a difícil relação entre irmão – embora até coubesse, afinal eu e minha irmã vivemos uma típica relação de amor e ódio eternos – mas é sobre um filme que paramos para ver… Na verdade sobre uma trilogia de filmes: Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr-do-Sol (2004) e o recém-lançado Antes da Meia-Noite (2013).

Antes de

A primeira vez que vi “Antes do Amanhecer” foi pela TV ainda na década de 90. Eu na época um típico desajustado jovem de cidade pequena, ouvinte de rock e MPB, com ideais socialistas, leitor de Os Pensadores, e, sendo bem franco e autocrítico, com ares de PIMBA (Pseudo-Intelectual Metido à Besta Associado), vi o filme com certo desdém, pois ele me foi apresentado como uma comédia românica. Porém, não falando de modo pejorativo, a filosofia de banheiro, a “boteco-psicologia”, a “eno-sociologia” e o ar underground do filme me conquistaram.

O filme – vou tentar não contar nada que tire o prazer de quem for ver pela primeira vez – conta a história dos dois jovens: o americano metido a intelectual Jesse, vivido por Ethan Hawk e a francesa Celine, interpretada por Julie Delpy. Os dois se conhecem em um trem. Ele após cruzar a Europa finaliza sua viagem em Viena e ela está indo de Budapeste a Paris. Os dois decidem continuar a conversa iniciada no trem caminhando pela capital austríaca até o “amanhecer”. Durante a conversa questões como: morte, livre arbítrio, solidão, sexo e claro as relações homem x mulher, são tratadas de forma espontânea. (Mais sobre o filme aqui)

Café 1

Embora tenha um roteiro que eu considero muito acima da média fugindo completamente aos clichês do estilo, conte com uma dupla de atores que conseguiu manter uma dinâmica excelente e Richard Linklater por seu trabalho muito bem-sucedido artisticamente tenha ganho o Urso de Prata, do Festival de Berlim de 1995. O filme, creio eu, não foi um sucesso avassalador – até por que os longos diálogos que tanto me atraíram distanciam o grande público. Porém se tronou cult e, vamos ser realistas, se não tivesse obtido um certo êxito não teria gerado expectativas e rendido suas sequências, não é mesmo?!

Antes do Pôr-do-Sol” – que eu não sabia que existia até três anos atrás, veio nove anos depois do primeiro filme e mostra um novo encontro da dupla/casal Jesse e Celine. Mais velhos os dois fazem inúmeras referências ao filme anterior, mas quem não viu o primeiro filme consegue facilmente se ambientar na história que novamente trás os dois dialogando. Dessa vez sobre temas como os conflitos da maturidade, meio ambiente, politica… Tudo isso envolto em uma aura de humor inteligente e tensão sexual entre os dois, que diverte e leva o expectador a refletir sobre como alguns caminhos que percorremos (ou seria melhor dizer que não percorremos?) podem nos levar a frustrações.

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É costume, ao se falar de trilogias, dizer que o primeiro filme é bom, que o segundo é mediano e o terceiro é o ápice (do êxito ou da catástrofe). Sobre “Antes da Meia-Noite” essa máxima não se concretiza, não que o filme seja ruim, muito pelo contrário, a terceira parte da história que está em cartaz nos cinemas (em Natal ele já saiu dos cines) é apenas diferente. Isso não só por agregar outros personagens que trazem uma outra forma de dialogar à trama, mas por trazer a concretização, ou não, dessa relação.

bar

Enquanto nos dois primeiros filmes se tinha uma idealização do relacionamento o terceiro mostra como ele se dá de fato. Será que esse estágio determina o fim do romantismo?! Ou o romantismo apenas muda seu modo, afinal o casal chegou na fase do, como eu diria: não estamos mais tentando conquistar e sim reconquistar um ao outro a cada momento.

Ah mas e cadê a música?

É eu ia esquecendo esse detalhe… Para não parecer que estou descaradamente me apoderando do espaço de cine do NaTocaTem deixo uma cena do primeiro filme quando Jesse e Celine estão em uma loja de discos e entram em uma cabine de música… “Come Here”, da Kath Bloom, é a musiquinha que inspira olhares no casal em uma cena sem diálogos e cheia de romantismo. Push/Play

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Dias do escurinho: Da servidão moderna

da-servidao-modernaÉ interessante como as redes sociais muitas vezes nos apresentam coisas maravilhosas. Neste último domingo (01), estava eu de bobeira pelo facebook quando um amigo postou em um grupo ao qual participo o documentário “Da servidão moderna” e mudou a minha noite. Tem filmes que têm uma capacidade incrível de fazer a pessoa pensar e refletir sobre a vida. Afinal, nem só de blockbusters vivem os seres humanos, não é mesmo?

O cinema me encanta exatamente pelo poder de reflexão que as histórias contadas naquela telona tem. É certo que o filme ao qual estou me referindo não pude ver no cinema, mas mesmo assim não perdeu o seu poder de crítica.

O documentário, produzido de forma independente, tem 52 minutos de muita reflexão e crítica sobre a nossas sociedade moderna e capitalista. Com imagens de diversos filmes e documentários, o filme vai apontando como nós, seres humanos, somos levados a um caminho de servidão em que toda a nossa vida é condicionada a manter um sistema político, econômico  e social que não é justo e só se sustenta na desigualdade.

A direção é de Jean-François Brient e Victor León Fuentes e todo o texto é inspirado nas contribuições de estudiosos como Diógenes de Sinope, Karl Marx, Etienne de la Boétie e Guy Debord, nos fazendo refletir como todos os aspectos das nossas vidas são influenciados por valores capitalistas e nem percebemos o quanto somos manipulados de tal forma que corroboramos para a manutenção da injustiça social.

O filme começa logo com a seguinte frase:

Mostrar a realidade tal qual é na verdade e não tal como mostra o poder, constitui a mais autêntica subversão. Somente a verdade é revolucionária.

Logo abaixo vocês podem ver o filme na íntegra e legendado. Vale muito a pena investir 52 minutos do seu dia e tentar entender a sociedade sob uma perspectiva diferente da que nos ensinaram. As diferentes visões fazem nossas mentes pensarem melhor. Pense nisso!

Sonhar com outro mundo tornou-se um crime criticado unanimemente pelos meios de comunicação e os poderes. Não existe loucura maior do que a do sistema atual.

Vontade de 1ª Vez no cinema

Pode ser que ao ler o título deste texto você tenha pensado que se iniciava aqui uma crônica sensual; ou quem sabe, o relato de uma sessão de filme de pornochanchada de algum cinema de rua antigo que hoje sobrevive de exibir estas películas.

Se o fiz pensar, lamento frustrar-lhe. Trata-se exatamente do contrário…

Ela tinha 9 ou 10 anos a primeira vez que seus pés pisaram naqueles chão de piso liso e desenhos em tons de vinho. O grande salão e a sensação boa do ar condicionado a recepcionaram muito bem, afinal, era verão naquela cidade no meio do pantanal do Mato grosso do Sul, o que significa dizer que em alguns dias era como viver dentro de um forno.

Foto por Monica Ramalho/Revista Moviola

Foto por Monica Ramalho/Revista Moviola

As altas paredes do salão, que tinha um belo teto com entalhes e detalhes dourados, pareciam de mármore. Hoje já não tem tanta certeza de que eram. O cheiro da pipoca estourando tomava o lugar e despertou seus sentidos. Do outro lado do balcão um rapaz de uniforme todo branco e um chapéu, perguntou o que desejava. Por trás dele havia máquinas de refrigerante, café e a pipoqueira gigante lotada de pequenos tesouros. Água na boca!

À frente do rapaz, por trás dos vidros do balcão, um colorido chamava a atenção. Fileiras e mais fileiras de doces, balas, chocolates, pirulitos e todo o açúcar que pode caber no universo infantil. Ela e a irmã mais nova ganharam da mãe um tubo com 10 balas de morango.

Uma música ambiente era ofuscada pelo barulho das crianças e mães que tomavam o salão. Era fim de tarde, assim como ela, muitas outras trajavam ainda os uniformes escolares.

O grande lustre no teto embelezava ainda mais o ambiente, mas já era hora de passar para a próxima sala. Após o grande portal de enormes cortinas vermelhas e douradas, a magia que a encantaria por toda a sua vida estava à sua espera, era muita ansiedade!

Tudo escuro. Ela podia ver sombras de pessoas se sentando nas diversas fileiras de belas cadeiras acolchoadas, tudo em vermelho com mais detalhes dourados. Cadeiras escolhidas, então era só esperar.

Logo um som alto tomou todo o lugar e um grande retângulo luminoso se destacou na frente da sala. O responsável pelo grande espetáculo foi o Walt Disney, representado ali pelo Mikey vestido de mágico, o anfitrião do show, que foi a animação Tarzan.

E foi assim, nessa tarde de sensações, que ela se apaixonou pelo cinema.

PS: O Cine Anache, na cidade de Corumbá-MS, ainda não virou igreja. Mas, o prédio hoje está abandonado, seguindo o exemplo de tantos outros cinemas de rua que morreram pelo Brasil. =/

Crônica – Temperos de Martins

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Cidade Serrana de clima frio e uma vontade de não querer sair. Martins de sabores, de temperos e festivais gastronômicos. Quem conhece o calor das praias potiguares não imagina que no interior do estado, no alto de uma serra, se esconde um cardápio de sensações. A velocidade passa, disfarça e perpassa por situações e amizades que fazemos durante o preparo de um novo prato.

Tudo começou com um simples Ratatouille na casa de Dona Elita, uma moradora sorridente daquela cidade. A panela vermelha atraia a atenção dos olhos, os legumes voltavam-se para o paladar, enquanto os condimentos, me condicionavam ao cheiro de uma verdadeira cozinha caseira. Um pequeno caldeirão com sotaque franco-potiguar.

Dona Elita_Martins_foto lamonier araujo (2)Nos restaurantes e barzinhos o sabor estava. A qualidade não era igual à da cozinha de Dona Elita, mas a diferença também tinha seu sabor. Eram petiscos na brasa, porções nas panelas de barro, sem falar no chocolate quente numa noite de 16 graus. Para quem desejasse tinha queijo de cabra acompanhado de um bom vinho. As pessoas sorriam como se a noite não tivesse fim e os amigos fossem suas estrelas. O sabor da felicidade estava ali, descrito em um bom cardápio de amizades.

Nas ruas, um festival gastronômico rolava. A Tilápia era o ponto de partida, e a mesa o ponto de chegada. Mas até lá, muita coisa tinha que ser feita. Os chefes tinham que descobrir, modificar, criar situações em torno do peixe. A cozinha era o ringue. E que não se deixe acreditar que a tarefa era fácil. Jurados, avaliadores e um público observador queria o melhor. Entre as armas de batalha, tudo era permitido.

DSCF2433Enquanto o ardor da pimenta aquecia o paladar da competição, a manteiga de garrafa embriagava o ambiente. Os pratos foram postos à prova. Decorados de verde e amarelo, apresentados sobre a folha de bananeira ou envelopados a caráter. Sabores pra todos os gostos e cores para todos os olhares.

Hoje é dia de “Titane e o campo das vertentes”

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Em junho deste ano ganhei de presente o DVD da cantora mineira Titane. Curiosa do jeito que sou, fiquei empolgada para ver logo, pois nada sabia a respeito da cantora.

Mas apesar da curiosidade, demorei uns dias para ver o conteúdo com calma e atenção. Só posso dizer do meu encantamento com o show de Titane. Em muitas canções ela divide o palco com outras vozes em coro e além desse detalhe, há vários momentos de performances durante a execução das músicas. Muito lindo de ver.

O show foi gravado em dezembro do ano passado no Sesc Palladuim em Belo Horizonte e contou com a direção de João das Neves que já dirigiu shows como os de Chico Buarque, MPB4 e Milton Nascimento. Já as composições vêm, boa parte, de Sérgio Peripê e são incríveis.

O nome do DVD é “Titane e o campo das vertentes” e dá pra ver um pedacinho do espetáculo nos vídeos abaixo. Se eu fosse você entraria no site da cantora e compraria o DVD pra ver logo tudo.

A melhor parte começa quando ela vai para as interpretações de músicas de Chico César, aquele lindo.

Crônica – Santos de Junho

Sem títuloSão João, São Pedro e Santo Antônio. Não funciona bem nessa ordem, mas o que importa é a vontade de comemorar o mês de junho. Santos que pouco conhecemos, mas que nesse período surgem para todos e em todos os lugares. Seja na palavra experiente de nossas avós, do milho assado na brasa ao lado dos amigos ou nas infernais bombinhas que explodem, antes mesmo de começar as festas. Tudo é festa!

As cores rompem o céu das ruas em forma de bandeirinhas, o forró pé-de-serra invade a nossa mente com memórias e o sabor da tradição ganha forma de canjica e pamonha. As casas ganham novos aromas. A canela na cozinha, o milho no quintal, a roupa velha do fundo do armário. Tudo pronto.

juninoEm junho, somos todos nordestinos. As roupas ganham os retalhos, com detalhes e apetrechos. As meninas ganham tranças de mentira, de menina do interior. Os meninos surgem com bigodes no auge de sua infância, acompanhando de um bom “Uai sô!”. Pra dançar não tem segredo, não tem ritmo e nem vergonha. As quadrilhas acontecem no melhor estilo improvisado e todo mundo se sente protagonista, até um pouco descarado.

No meio da festa, surge um puro casamento matuto com direito a madrinha e até rainha. Nada de luxo. Tudo não passa de uma simulação. A briga é pensada, o fogo nasce no coração dos casais, as cores não desbotam e a felicidade está no sorriso desdentado de cada matuto. No final, o simples vira luxo e o público é o maior momento do arraiá.